Romanos 12:2
E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.

Espiritualidade ou misticismo?

Existe em todo o mundo um movimento entre católicos e protestantes que visa resgatar a mística medieval, especialmente as práticas e as disciplinas espirituais dos monges e freiras da Idade Média, como modelo para uma nova espiritualidade hoje. Esse movimento, geralmente conhecido como "espiritualidade", tem sido defendido por líderes católicos e protestantes e apresenta-se como uma reação à frieza, à carnalidade e ao mundanismo da cristandade moderna, especialmente da ala mais conservadora.

Não discordo de tudo o que os defensores da espiritualidade dizem. Quebrantamento, despojamento, mortificação, humildade e amor ao próximo são conceitos bíblicos e encontramos esses conceitos em vários dos seus escritos. Meu problema não é tanto o que eles dizem, mas o que eles não dizem ou dizem muito baixinho, a ponto de se perder no cipoal de outros conceitos.

Sinto falta, por exemplo, de uma ênfase na justificação pela fé em Cristo, pela graça, sem as obras ou méritos humanos, como raiz da espiritualidade. Uma espiritualidade que não se baseia na justificação pela fé e que não nasça dela está fadada a virar, em algum momento, uma tentativa de justificação pela espiritualidade ou pela piedade pessoal, uma tentativa de se chegar a Deus de forma direta e imediata, sem a mediação de Cristo. Não estou dizendo que os defensores da espiritualidade neguem a justificação pela fé somente - talvez os defensores católicos o façam, pois a doutrina católica de fato anatematiza quem defende a salvação pela fé somente. O que estou dizendo é que não encontro essa ênfase à justificação pela fé em Cristo nos escritos que defendem a espiritualidade.

Sinto falta, igualmente, de uma declaração mais aberta e explícita de que a espiritualidade começa com a regeneração, o novo nascimento, e que somente pessoas que nasceram de novo e foram regeneradas pelo Espírito Santo de Deus é que podem realmente se santificar, crescer espiritualmente e ter comunhão íntima com Deus. A ausência da doutrina da regeneração no movimento pode dar a impressão de que por detrás de tudo está a idéia de que a religiosidade natural, inata, do ser humano, por causa da imago dei, seja suficiente para uma aproximação espiritual em relação a Deus mediante o emprego das práticas devocionais.

O caráter progressivo na santificação também está faltando na pregação do movimento. Quando não mantemos em mente o fato de que a santificação é imperfeita nesse mundo, que nunca ficaremos aqui totalmente livres da nossa natureza pecaminosa e de seus efeitos, facilmente podemos nos inclinar para o perfeccionismo, que ao fim traz arrogância ou frustração.

Também gostaria de ver mais claramente explicado o que significa imitar a Jesus, um ponto que é bastante enfatizado no movimento. Até onde sei, Jesus não era cristão. A religião dele era totalmente diferente da nossa. Nós somos pecadores. Jesus não era. Logo, ele não se arrependia, não pedia perdão, não mortificava uma natureza pecaminosa, não lamentava e chorava por seus pecados. Ele não orava em nome de alguém e nem precisava de um mediador entre ele e Deus. Ele não sentia culpa pelo pecado - a não ser quando levou sobre si nossos pecados na cruz. Ele não precisava ser justificado de seus pecados e nem experimentava o processo crescente e contínuo de santificação. A religião de Jesus era a religião do Éden, a religião de Adão e Eva antes de pecarem. Somente eles viveram essa religião. Nós somos cristãos. Eles nunca foram. Jesus nunca foi. Como, portanto, vou imitá-lo nesse sentido? É esse tipo de definição e esclarecimento que sinto falta na literatura da espiritualidade, que constantemente se refere à imitação de Cristo sem maiores qualificações. Quando vemos Jesus somente como exemplo a ser seguido, podemos perdê-lo de vista como nosso Senhor e Salvador. Quando o Novo Testamento fala em imitarmos a Cristo, é sempre em sua disposição de renunciar a si mesmo para fazer a vontade de Deus, sofrendo mansamente as contradições (Fp 2.5; 1Pe 2.21). Mas nunca em imitarmos a Jesus como cristão, em suas práticas devocionais e na sua espiritualidade.

Faltam ainda outras definições em pontos cruciais. Por exemplo, o que realmente significa "ouvir a voz de Deus", algo que aparece constantemente no discurso dos defensores da espiritualidade? Quando fico em silêncio, meditando nas Escrituras, aberto para Deus, o que de fato estou esperando? Ouvir a voz de Deus com esses ouvidos que um dia a terra há de comer? Ouvir uma voz interior? Sentir uma presença espiritual poderosa, definida, que afeta inclusive meu corpo, com tremores, arrepios? Ver uma luz interior, ou até mesmo ter uma visão do Cristo glorificado e manter diálogos com ele, como alguns dizem ter experimentado? Ou talvez essa indefinição do que seja "ouvir a voz de Deus" seja intencional, visto que a indefinição abriga todas as coisas mencionadas acima e outras mais, unindo por essas experiências vagas pessoas das mais diferentes persuasões doutrinárias e teológicas, como católicos e evangélicos, conservadores e liberais?

Por todos esses motivos acima, nunca realmente me senti interessado na espiritualidade proposta por esse movimento. Parece-me uma tentativa de elevação espiritual sem a teologia bíblica, uma tentativa de buscar a Deus por parte de quem já desistiu da doutrina cristã, das verdades formuladas nas Escrituras de maneira proposicional. Prefiro a espiritualidade evangélica tradicional, centrada na justificação pela fé, que enfatiza a graça de Deus recebida mediante a Palavra, os sacramentos e a oração e que vê a santidade como um processo inacabado nesse mundo, embora tendo como alvo a perfeição final.

Enfim. Deus me guarde de ir contra a busca de uma vida cristã superior, de desenvolver a vida interior. Que Ele igualmente me guarde de qualquer tentativa de alcançar isso que não esteja solidamente embasada em Sua Palavra.

Notícias 

Resoluções de Jonathan Edwards...

10 Fevereiro 2015
Resoluções de Jonathan Edwards

Jonathan Edwards (5 de outubro de 1703 - 22 de março de 1758) foi pregador congregacional, teólogo calvinista e missionário aos índios americanos,...

Festas juninas: típicas ou pag...

19 Junho 2015
Festas juninas: típicas ou pagãs?

O mês de junho é um dos meses mais esperados pelos nordestinos, o motivo são as festas juninas. O caráter dado a este evento camufla a sua origem e...

Os pilares da reforma

26 Outubro 2014
Os pilares da reforma

A Reforma Protestante foi marcada pela afixação das 95 teses do monge agostiniano Martinho Lutero em uma das portas da Igreja de Witenbergue no dia 31 de outubro de 15...

Lei que propõe que escolas dis...

15 Janeiro 2014
Lei que propõe que escolas disponibilizem exemplares da Bíblia para consulta gera polêmica

A relação entre o Estado e a religião é um tema que constantemente se torna motivo de debates e discussões em todo o país. Uma das ...

Por que Missões?

14 Agosto 2015
Por que Missões?

Tem-se perguntado, ao longo da história da Igreja, por que esta deve investir em Missões. Talvez uma análise breve da situação do Ev...

A missão da igreja

07 Agosto 2015
A missão da igreja

“Ide por todo mundo, pregai o evangelho a toda criatura...” Mc.16.15 É necessário distinguir o caráter missionário d...

Cantata de Natal IPBV 2015

20 Dezembro 2015

Gravações da Cantata de Natal IPBV 2015. IMAGINE o mundo sem Natal: Parte 1 de 4: Parte 2 de 4: Parte 3 de 4: Parte 4 de 4:

Missões, uma obra de Deus

31 Julho 2015
Missões, uma obra de Deus

A missão tem a sua origem no próprio relacionamento da Trindade e encontra o seu instrumento na incumbência Missionária atribuída &a...

498 anos da Reforma Protestant...

30 Outubro 2015
498 anos da Reforma Protestante

A força prática da teologia reformada não está simplesmente em seu vigor e capacidade de influenciar intelectualmente os homens. Sola fide ...

Pela repetição conseguimos man...

12 Janeiro 2015
Pela repetição conseguimos manter as lembranças na memória.

“Finalmente, meus irmãos, alegrem-se no Senhor! Escrever-lhes de novo as mesmas coisas não é cansativo para mim e é uma seguran&cced...

Espiritualidade ou misticismo?

03 Julho 2013

Existe em todo o mundo um movimento entre católicos e protestantes que visa resgatar a mística medieval, especialmente as práticas e as disciplinas espirituais dos ...

Contribuindo para o reino de D...

03 Julho 2013

Entenda o que Deus nos ensina a respeito do dinheiro Os abusos quanto ao levantamento de recursos financeiros praticados por algumas igrejas acabaram por tornar bastante delicada a quest&...

Estudos 

Catecismo de Heidelberg (1563)

02 Abril 2017

Catecismo de Heidelberg (1563) por Zacarias Ursino e Gaspar Oleviano DOMINGO 1 1. Qual é o seu único fundamento, na vida e na morte? O...

Breve Catecismo de Westminster

02 Abril 2017

PERGUNTA 1. Qual é o fim principal do homem? RESPOSTA. O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre. Referências: Rm 11...

Símbolos de Fé

28 Setembro 2016

Os Símbolos de Fé oficiais da Igreja Presbiteriana do Brasil são: Confissão de Fé de Westminster, Catecismo Maior de Westminster e Breve Catec...

Catecismo Maior de Westminster

28 Setembro 2016

Link para download do Catecismo Maior de Westminster: https://www.ipb.org.br/recursos/download/catecismo-maior-de-westminster-3 1. Qual é o fim supremo e principal do homem? ...

Confissão de Fé de Westminster...

28 Setembro 2016

Link para download: http://www.ipb.org.br/recursos/download/a-confissao-de-fe-de-westminster-148 (http://www.ipb.org.br/recursos/download/a-confissao-de-fe-de-westminster-148) CAPÍ...

Eventos 

Agosto 2017
D S
30 31 1 2 3 4 5
6 7 8 9 10 11 12
13 14 15 16 17 18 19
20 21 22 23 24 25 26
27 28 29 30 31 1 2